"Já vi tudo, só falta acreditar que o portão do retorno está trancado"
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Letra e música perfeitas.
Belíssima!
Siba - Qasida
Álbum: Avante (2012)
"Lembro bem do momento em que parti Só não sei quantas vezes retornei Como sempre, na hora em que cheguei Me dei conta que errei voltando aqui As ruínas da casa estão aí Só paredes em pé, não tem telhado Falta porta, está tudo escancarado Mas o ar não se mexe pra passar Já vi tudo, só falta acreditar Que o portão do retorno está trancado
Não adianta tirar de onde não tem Nem tentar encaixar onde não cabe Sem saber alguém tenta, e quando sabe Já não dá nem um passo mais além Pois, de trás para frente nada vem O que foi, já não é e nem será E da frente pra trás ninguém irá Desfazer o que fez certo ou errado Vou deixar esse canto abandonado Para sempre do jeito como está
Me esparramo ao relento, o chão é torto Canta um grilo escondido e mais ninguém Vou dormir nesse abrigo que só tem Sede, fome, sujeira, desconforto Pra sonhar que acordei de um sonho morto No quintal de uma casa onde eu podia Não correr contra o tempo enquanto eu via Teu sorriso indo e vindo num balanço Sem voltar pra você, eu não descanso Minha casa é você e eu já sabia"
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Qasida:
forma lírica adotada por poetas árabes e persas, muitas vezes traduzida como "ode".
Composta por três partes, podendo chegar a mais de cem versos, seus temas incluem a exaltação da terra natal, a nostalgia causada
pela distância em relação à tribo de origem e a distância da
amada.
"A certa altura nesses passeios, Breavman apresentou o problema para si da seguinte forma: Breavman, você está apto às mais diversas experiências neste que é o melhor dos mundos possíveis. Tantos belos poemas que vai escrever e pelos quais será elogiado, e tantos dias tristes em que não será capaz de nem mesmo colocar a caneta no papel. Haverá muitas e adoráveis bocetas onde relaxar, diferentes cores de pele para beijar, muitos orgasmos pela frente, e tantas outras noites em que terá que se livrar do desejo caminhando, amargo e sozinho. Haverá muitos ápices de emoção, intensos fins de tarde, intuições exaltadas, dores criativas e muitos sanguíneos platôs de apatia em que não será dono de nem mesmo seu próprio desespero. Haverá ainda muitas boas mãos para jogar com crueldade ou benevolência, céus imensos sob os quais se deitar e se congratular pela humildade, tantas viagens nas galés da mais sufocante escuridão. Eis o que espera por você. Agora, Breavman, eis o problema. Vamos supor que você pudesse passar o resto da vida exatamente como está agora neste minuto, neste carro viajando para o interior profundo, nesta exata parada da estrada ao lado de uma fileira de postes de sinalização, sempre a 120 passando por esses postes, tocando essa canção de jukebox sobre rejeição, esse céu específico com suas nuvens e estrelas, a mente incluindo esta imediata seção transversal da memória – o que você escolheria? Mais cinquenta anos neste carro ou mais cinquenta de conquistas e fracassos?
E Breavman nunca hesitou na escolha que fez.
Seguir em frente como agora. E que a velocidade não diminua nunca. Que a neve se mantenha. Que eu nunca seja privado dessa parceria com meu amigo. Que nunca encontremos coisas diferentes pra fazer. Que nunca calculemos o valor um do outro. Que a lua fique de um dos lados da estrada. Que a garota seja um borrão dourado na minha mente, como o nevoeiro da lua, ou o brilho de neon sobre a cidade. Que a guitarra rítmica pulse sobre a declaração:
When I lost my baby I almost lost my mind
Que a extensão das serras quase comece a brilhar. Que as árvores não se escondam sob as folhas. Que as negras cidades durmam uma única longa noite como amante de Lésbia. Que os monges nos monastérios inacabados se ajoelhem às quatro da manhã para orar em latim. Que Pat Boone fique no mais alto posto das paradas e conte a todos no turno da noite nas fábricas:
I went to see the gypsy To have my fortune read. Que a neve sempre dignifique as entradas de carro do caminho até Ayer’s Cliff. Que as barracas de madeira pregada dos vendedores de maçã nunca tenham maçãs polidas nem toques de cidra. Mas deixem-me lembrar o que me lembro sobre jardins. Deixem-me ficar com meu precioso décimo de segundo de fantasia e recordação, mostrando todas as camadas como uma amostra geológica. Que o cadillac ou o fusca corram como por encanto, como uma bomba, deixe que explodam. Que a canção faça o comercial esperar para sempre.
I can tell you, people, The news was not so good.
A notícia é ótima. A notícia é triste, mas veio numa canção, de modo que não é tão ruim assim. Pat está fazendo todos os meus poemas por mim. São versos para um milhão de pessoas. É tudo o que queria dizer. Ele destilou toda a tristeza, glorificada numa câmara de eco. Não preciso de minha máquina de escrever. Não é ela a bagagem que de repente me lembrei de ter esquecido. Nem lápis, esferográfica, bloco. Não quero sequer desenhar no sereno do para-brisa. Posso inventar sagas na minha cabeça por todo o caminho até Baffin Island mas não preciso passá-las por escrito. Pat, você roubou meu emprego, mas é tão bom sujeito, velho sucesso americano, vencedor ingênuo, que tudo bem. Minha única crítica é: seja um pouco mais desesperado, tente soar como se estivesse agonizando ou vamos precisar de um negro para substituí-lo: She said my baby’s left me And she’s gone for good.
Não deixem as guitarras ralentarem como as rodas de uma locomotiva. Não deixem o sujeito da rádio CKVL me dizer o que acabei de ouvir. Doce música, não me rejeite. Que as palavras continuem como a paisagem que, por mais que viajemos, não deixaremos nunca.
Gone for good
Certo, deixe durar a última sílaba. Este é o décimo de segundo pelo qual troquei todas as presidências. Os postes telefônicos fazem jogos intrincados de cama de gato com os cabos passando velozes. A neve se amontoa como o Mar Vermelho dos dois lados dos nossos para-lamas. Ninguém nos espera nem dá pela nossa falta. Colocamos todo o dinheiro no tanque de gasolina, estamos abastecidos feito camelos no Saara. O carro seguindo aos trancos, as árvores, a lua e sua luminosidade nos campos de neve, os acordes agudos e resignados da canção – tudo está em perfeito equilíbrio para o rápido congelamento, o caso eterno no museu astral.
Good
Adeus, senhor, amante, rabi, doutor. Até. Não esqueça as amostras de aventuras de sua mala de comerciante. Meu amigo e eu ficaremos bem aqui – do nosso lado do limite da velocidade. "
O Plinius. Bem, o Plinius acordou certa manhã com aquela vontade incontrolável de atear fogo em Roma. Mas chovia um pouco e coisa e tal e ele deixou quieto.Esperou a vontade passar, vestiu o escafandro recém-reformado pelo seu alfaiate de confiança e foi trabalhar com aquele bomhumor que lhe era característico até debaixo d'água.
Quatro dias depois, finalmente fez um solzinho e o Nero foi lá e pow!: tocou fogo geral.
O Plinius só assistiu de longe, da janela da repartição, dividido entre a frustração, a inveja e o maravilhamento.
Mas isso foi há muito, muito tempo, em julho de 64. Não 1964, mas 0064 mesmo, os anos sessenta que realmente pegaram fogo.
A boa notícia é que estas coisas já não acontecem nos dias de hoje. Os escafandros passaram por um processo longo e intenso de modernização e, atualmente, não apenas são à prova d'água como também são à prova d'fogo.
(Nápoles, 9 de fevereiro de 1770 – 17 de fevereiro de 1841)
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"Ferdinando Maria Meinrado Francesco Pascale Rosariofoi um dos mais famosos compositores clássicos e violonistas da história, além de ser o autor do método completo para violão mais conhecido no mundo, o qual continua a ser usado. Foi extremamente profícuo, escreveu mais de 400 obras em 12 anos."
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"A grande maioria das obras remanescentes de Carulli são as que foram
consideradas 'seguras' o suficiente para serem aceitas por outros
editores, principalmente para o ensino técnico ou para iniciantes.
Embora tivesse muitos alunos e admiradores, Carulli começou a acreditar
que ele não merecia a sua reputação impressionante, porque a maioria das
grandes obras que ele tinha composto nunca foram publicadas."
(Fonte: Wikipédia)
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Ninguém aqui é artista, mas algo me diz que a informação procede, general.
"Take my arm, take my leg, oh baby don't you take my head?"
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"Ahh, bleed it alright, bleed it alright, bleed it alright You can bleed all over me bleed it alright, bleed it alright, bleed it alright You can cum all over me"
"Tistu pôs chapéu de palha para ir à aula de jardim. Era a primeira experiência do novo sistema. O Sr. Papai havia julgado melhor começar por aí. Uma lição de jardim, afinal de contas, é uma lição de terra, essa terra em que caminhamos, que produz os legumes que comemos e o capim com que os animais se alimentam, até ficarem bastante gordos para serem comidos... A terra, tinha declarado o Sr. Papai, está na origem de tudo."
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"Um prodígio é um prodígio. Primeiro, a gente o constata.
Depois, procura explicá-lo. Tistu perguntou: — Mas, se não se havia posto semente, Sr. Bigode, de onde é que saíram estas flores? — Mistério, mistério... — respondeu Bigode. Em seguida, tomou bruscamente nas suas mãos calejadas a mãozinha de Tistu. — Deixe ver o polegar! Examinou atentamente o dedo do menino, em cima e embaixo, na sombra e na luz. — Meu filho — disse enfim, após madura reflexão — ocorre com você uma coisa extraordinária, surpreendente! Você tem polegar verde..."
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"Tistu não pareceu muito entusiasmado com a descoberta. — Já vão dizer de novo que eu não sou como todo mundo — resmungou. — O melhor — replicou-lhe Bigode — é não falar nada com ninguém.
Que adianta despertar curiosidade ou inveja?
Os talentos ocultos, em geral, trazem aborrecimentos. Você tem o polegar verde, está acabado. Mas guarde para você, e fique em segredo entre nós. E no caderninho de notas, entregue pelo Sr. Papai e que Tistu devia fazer assinar no fim de cada aula, o jardineiro Bigode escreveu apenas:
'Este menino revela boas disposições para a jardinagem.'"
Certa vez, em um lugar muito distante daqui e muito próximo de lá, houve essa dupla de ‘empleiteiros’ trapalhões. Era o Du e o Dino. O Du era um diminutivo de Edullerdo e o Dino, de Dinossaurion. Sozinhos, cada um na sua, eles eram inofensivos, mas quando se uniam - putz! - aí eles sabiam fazer estrago. Saiam ‘empleitando’ tudo de qualquer jeito, sem cuidado ou consideração. Em cima da ‘empleiteira’ deles, o céu era sempre azedo e sinistro. E a chuva, era como aquela descrita pelo Campos de Carvalho: imóvel.
Até um jesus-menino que ousasse passar de bicicleta em frente à ‘empleiteira’ deles corria o risco de ficar imobilizado para sempre, tamanho era o peso do ar nos arredores. Mas eles eram apenas ‘empleiteiros’, e o ‘empleiteiro’, vocês sabem, fica até o serviço (ou estrago) estar feito e um belo dia vai embora. Sim, que belo dia esse! Nesse dia o jesus-menino completa aquela pedalada adormecida e o sol e aqueles ventos uivantes de alegria sopram as nuvens escuras pra longe, longe. Pra outra infeliz freguesia distante.
Pelo menos é o que se espera.
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Bem, esta é a parte fictícia da história. Nada disso aconteceu de fato. É tudo invenção do ficcionista. Mas eis a parte real da história: poucos meses (três ou quatro ou cinco) após esta foto, a ‘empleiteira’ do Du e do Dino foi demolida. Pois é, o avanço da civilização e da humanidade tem dessas coisas. Era pouco conteúdo pra muito espaço e neste lote foi construído algo maior. Não se sabe (e nem ao menos se pretende saber) o que o Du e o Dino andam fazendo hoje além de trapalhadas. Talvez tenham se reunido com o Didi e o Dedé, pra tentar fazer um novo filme (de baixíssimo orçamento, claro) dos trapalhões. Se bem que isso seria uma afronta à memória dos dois melhores deles, o Mussum e o Zaca. Talvez tenham inventado uma máquina de descascar bananas, eu não sei, e nem nos interessa.
Mas o jesus-menino, esse da foto, ah, ele pedala solto, solto sob um dos céus mais azuis e quentes que há. Carinhoso de tão azul. Refrescante de tão quente. Com nuvens fofas que só existem pra descansar os olhos de tanta cor e pra dar aquele tipo de charme discreto dispensável mas impossível de se abrir mão.
E é como meu avô sempre dizia:
“ - Se os ‘empleiteiros’ pedalassem mais eles seriam ‘empleiteiros’ melhores.”
(Mentira, meu avô nunca disse isso, mas se eu tivesse perguntado, tenho certeza de que ele teria dito. E tenho certeza também de que, se não o meu, o avô de outra pessoa já disse.)
Então, é isso mesmo, vô querido de alguém, concordo.
Quem sabe dessa forma a coroa da bicicleta - rigorosa, metálica, exata, afiada, imperativa - não mastigava e cuspia aquele uniforme ridículo e então eles se davam conta do absurdo do absurdo do absurdo do absurdo do absurdo do absurdo do absurdo desta ‘empleita’?
Até lá, pedala, jesus-menino, pedala bastante e olhai por nós.
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Esta é uma história fictícia, de baixo orçamento e sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com a realidade terá sido absoluta e total coincidência. Minhas sinceras desculpas ao Du e ao Dino reais, os que de fato acreditaram naquela humilde, simples e bela 'empleita' no coração duro de um país qualquer. Esses merecem nossa admiração e confesso que senti muito quando soube da demolição.
Fica a imagem pra tombar essa história e, tomara, a que ainda será contada.