sábado, 14 de fevereiro de 2026

Palmeiras selvagens (3/?) + É minha e me pertence (3) [verdade matemática do ensolarado intemporal vazio]


Como 1 e 1 são vários:

cada canto;
cada abandono;
cada coqueiro
(solitário ou gregário, selvagem, urbano ou suburbano).

***

“Porém, os dias em si continuavam iguais – a mesma recapitulação estacionária do intervalo dourado entre a alvorada e o crepúsculo, os longos dias tranquilos e idênticos, a imaculada hierarquia monótona dos meios-dias cheios do quente mel solar, através dos quais o ano moribundo vagava na degradação vermelha-e-amarela das folhas de árvores decíduas, sem origem, indo para lugar nenhum.”

***

“...solidão plena de sol...”

***

“...tédio muscular absoluto...”


AGO/2024

***

"Então um dia resolveu fazer um calendário, uma ideia inocentemente concebida não pela mente, pelo desejo de ter um calendário, mas pelo tédio muscular absoluto, e realizada com o puro e tranquilo prazer sensorial de um homem talhando uma caixa num caroço de pêssego ou o pai-nosso numa cabeça de alfinete; desenhou o calendário com capricho no bloco, numerando os dias, planejando usar diversas cores apropriadas para os domingos e feriados. Imediatamente descobriu que havia perdido a conta dos dias, mas isto só aumentou a expectativa, prolongando o trabalho, tornando o prazer mais complexo, a caixa de pêssegos deveria ser dupla, a reza deveria estar em código. Por isso voltou para aquela primeira manhã em que McCord e ele se agacharam junto da água, cujo nome e data sabia, então contou para diante, reconstruindo de cabeça as sonolentas demarcações entre uma madrugada e outra, desembaraçando uma a uma da trama áspera como vinho e silenciosa como mel da solidão sem marés, as terças e sextas e os domingos perdidos; quando de repente lhe ocorreu que podia comprovar os números, estabelecer a verdade matemática do ensolarado intemporal vazio no qual as unidades diárias haviam desvanecido, pelas datas dos intervalos entre os períodos menstruais de Charlote; sentiu-se como um velho contemplativo apoiado por um cajado nas antigas colinas sírias movimentadas por ovelhas deve ter se sentido após tropeçar acidentalmente em alguma fórmula alexandrina que provava as verdades estelares que ele havia observado a cada noite toda a vida e sabia ser verdadeiras, embora não soubesse como nem por quê.”

***

"...desembaraçando uma a uma da trama áspera como vinho e silenciosa como mel da solidão sem marés..."

***

“Descobri há uns tempos que é o ócio que cria todas as nossas virtudes, nossas qualidades mais suportáveis – a contemplação, a equanimidade, a preguiça, deixar os outros em paz; boa digestão mental e física: a sabedoria que é se concentrar nos prazeres da carne – comer e evacuar e fornicar e se sentar ao sol -, dos quais nada é melhor, nada se compara, nada mais em todo este mundo do que simplesmente viver durante o curto espaço em que nos emprestam alento, do que estar vivo e consciente...”

***

“...com a indelével marca de dez mil subxerifes sulinos, urbanos e suburbanos...”

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

[a cidade é minha (2)] + [Música Salva! (51): Lebres prateadas dançando em círculo!]


Cada canto.
Cada abandono.

***


...through the roof...


...'n' underground...

***

Through the Roof 'n' Underground
Gogol Bordello

***

"When there's a trap set up for you
In every corner of this town
And so you learn the only way to go is underground
When there's a trap set up for you
In every corner of your room
And so you learn the only way to go is through the roof"

"...oohh, oohh, oohh..."

***

"Серебряные зайцы там водят хоровод!"

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Palmeiras selvagens (2/?) [rendimentos normais decrescentes e o amor economicamente inviável]


E por falar em paradoxal, ultrajante e bizarro, aí vai uma pergunta filosoficapciosespeculativa, pense bem antes de responder em seu âmago:

E se, bem longe daqui, em uma noite escura e uivante, que por descuido da lua ficou de fora de todos os calendários já datilografados sobre esta imensa e desolada terra, uma palmeira é arrancada do solo profundo e adormecido por este louco e ensandecido vento devastador, que a faz desabar violentamente no duro tapete asfáltico de um breu absoluto, porém, sem ninguém para testemunhar a queda, ela (a palmeira) faz algum barulho ou apenas emite – no linguajar e ao modo particular das palmeiras - o mesmo som e a mesma fúria de um ciclone atravessando Saturno?

***

“...como a fileira de formigas entre os trilhos por onde passa o trem expresso, elas (as formigas) tão ignorantes do poder e da fúria como de um ciclone atravessando Saturno.”


***

Como toda especulação filosoficapciosespeculativa, isso não tem resposta correta, mas o que eu posso garantir é que as palmeiras usadas neste livro de forma alguma podem ser consideradas ambientalmente corretas, socialmente justas ou, principalmente - principalmente mesmo - economicamente viáveis.

E ainda menos de origem controlada.


Palmeiras Selvagens - William Faulkner (1939)
(Companhia das Letras, 2024)

***

“Sim. No amor. Dizem que o amor morre entre duas pessoas. É mentira. Não morre. Simplesmente abandona você, vai embora, se você não é bom o bastante, digno o bastante. Não morre; quem morre é você. É como o oceano: se você não presta, se começa a empesteá-lo, ele te cospe fora em alguma parte para morrer. Você morre de qualquer jeito, mas prefiro me afogar no oceano a ser vomitada numa faixa perdida de praia e acabar secada pelo sol até me tornar uma mancha suja sem nome, com apenas 'Isto Foi' como epitáfio.”

*

“E a fome não está aqui... – Ela bateu na barriga dele com as costas da mão. – São só suas entranhas roncando. A fome está aqui.  – Tocou no peito dele. – Nunca se esqueça disso.

- Não esquecerei. Agora não.

“Mas poderá esquecer. Você já sentiu fome nas entranhas, por isso está com medo. Porque a gente sempre tem medo daquilo que suportou.”

*

“Ela alugou aquela claraboia.”

*

“Como coisas criadas para viver apenas na maior e mais asfixiante escuridão, como num cofre de banco ou talvez num pântano venenoso, não no ar nutritivo, rico e normal expelido por entranhas cheias de legumes...”

*

“Deus não vai deixa-la morrer de fome, pensava. Ela é valiosa demais. Ele caprichou demais nela. Mesmo quem criou todas as coisas deve gostar de algumas o bastante para querer guardá-las.”

*

“ – Em nome de Jesus Schopenhauer – disse McCord. – Que espécie de literatura de nona categoria é essa? Você ainda nem começou a passar fome. Ainda nem concluiu seu curso completo de indigência.”

*

“...um meio-fio suburbano e opulento...”

*

“...os gramados corrediços da meia-noite...”

*

“A gente não se dá conta do quão flexível é o dinheiro até trocá-lo por alguma coisa – disse. – Talvez seja isso que os economistas entendem por rendimentos normais decrescentes.”

***

E, em nome de Jesus Schopenhauer e do Espírito Santo do FSC, assim como o amor selvagem é sempre economicamente inviável, enchentes e ciclones talvez sejam também um pouquinho ambientalmente incorretos e socialmente injustos, de alguma forma.

Ou seria o contrário?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Palmeiras selvagens (1/?) [desolação aquática: paradoxal, ultrajante e bizarro]


 “Duas horas mais tarde, ao crepúsculo, eles viram pelas vidraças gotejantes uma casa de fazenda em chamas. Justaposta a lugar nenhum e vizinha de nada, ela se erguia, uma límpida e contínua chama semelhante a uma pira fugindo rigidamente do próprio reflexo, queimando no escuro acima da desolação aquática com um caráter paradoxal, ultrajante e bizarro.”


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Palmeiras Selvagens - William Faulkner (1939)
(Companhia das Letras, 2024)

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"Quem tem casa pode se mudar"
Father Don Doll | 1984 | Alasca

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Verdade, essa imagem já apareceu por aqui antes.
Apenas me repetindo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Eu te farei companhia

Lonely CityBill Callahan
Álbum: My Days of 58 (2026)

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Loooooooooonely city
Loooooooooonely city
(I'll keep you company)

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Quase dez anos desde a última vez do Bill Callahan por aqui:

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Estamos sempre fazendo aniversário de nós mesmos ou de alguma coisa.
E Jesus também.

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"So let us thriiiiive, let us thriiiiiive, let us thriiiiiive, let us thrive
Just like the weeds, we curse sometimes."

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

tanta coisa ou apenas uma:

 


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"I feel like a deer in the headlights of love."
(Todd La Rue)

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"Honey, you've got a big storm coming."

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"People say that time heals all wounds."

***

Veremos.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Close-Up

 

Close-up
(Abbas Kiarostami, 1990, Irã)

***

"Foi por isso que me refugiei em um livro, que li e reli inúmeras vezes, para curar meu coração."

***


Il giorno della prima di Close Up
(Nanni Moretti, 1996, Itália)

sábado, 20 de setembro de 2025

balancemos, balençamos: hontem e oje


JUL/2022

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inicialmente, te emprestei o meu,
depois passei a carregar dois lenços,
um em cada bolso.

quando chorava usava o da direita,
quando você chorava, te oferecia o da esquerda.

não por nada não, viu, mas só
com propósitos puramente sanitários,
considerando com cautela o ambiente hospitalar.

às vezes, usava os dois sem perceber,
às vezes, te oferecia ambos
enxugava nas costas da mão
ou deixava pingar solto nas suas omoplatas.

e houve ocasiões em que choramos aleatoriamente
nestes paninhos
misturando muco e lágrima meus e seus
tanto no da direita, quanto no da esquerda e vice-versa,
sem nenhuma cerimônia.

hoje vi que você ainda usava o lenço de anteontem,
mesmo eu sendo tão cuidadoso em renovar o estoque
com peças limpas a cada nova visita
à UTI humanizada.

te perguntei o motivo, mas, sem esperar resposta,
ofereci de pronto um outro novinho
apenas para descobrir que você
poupava no canto da bolsa os dois lencinhos limpos
de hontem e oje.

e pensar que houve uma noite cega e suja nessa cidade em que alguém se virou sem tato de seda ou microfibra e nos disse:
"- quem ainda carrega lenços nesse mundo?"

(oje, SET/2025)

domingo, 14 de setembro de 2025

soa o gongo



JUL/2022

***

de um lado do ringue
oitenta e dois quilos
de bronquite e tártaro
do outro lado do ringue,
o cruzado de esquerda
mais insosso da cidade

soa o gongo do primeiro assalto
e sigo gastando todo o seu
dinheiro em dívidas
de apostas nas
lutas que não são nada bonitas de se ver

minha dívida eterna de córnea e retina

assisto atento ao município
com a habilidade de escotista
nestes campos de bocejo
em que o menos interessante é sorte

e rabisco os cenários,
os movimentos,
os caracteres
nesse meu caderno de vários erros consecutivos,

os mais dissimulados
erros

e quando falta a criatividade
o que assalta é o algoritmo
ou a perspicácia sincera
do daguerreótipo
imparcial

onde há ínfima novidade ou luz,
volta ligeira no quarteirão
relaxa pupilas e
traz alívio de ar fresco ilusório

testemunho na praça central
que, descida do palanque da razão,
a felicidade agora está descalça no pátio
garantindo sua satisfação
a preços módicos

e nos sons e ruídos incidentais da trilha
de rua: os novos e já tão grandiosos artistas

o jazz desconfia, discorda e de tudo duvida
o blues procrastina suas dores
o choro segura o choro, o samba camba,
a bossa, sova

movimento perpétuo em
máquina de madeira, metal, couro, nylon
carne e fôlego

e, investigando, sigo mais um pouco e ainda a pé,
afinal, um cara,
quando é um rústico, um drástico, um dramático, um trágico, um apocalíptico,
ele anda a pé

seja na chuva sovina daqueles sete anos
seja neste rascante, incendiário e sisífico mês de agosto

colecionando azarões perfeitos
- estrutura e formação -
constituição bem trabalhada
de viver beijando a lona
sem jamais se permitir
jogar a toalha

lutas nada bonitas de se ver

então saquemos dos nossos próprios bolsos
e façamos nossas apostas por conta e risco

a cidade não vai esperar
a reunião do conselho da tesouraria

(2019)

***


Shining (2025)
Mac DeMarco

***

Sim, tudo muito bom, tudo muito bem, muito bonito, muito falsetístico, muito equestre, muito puro.

Mas a questão é que o sol já não brilha sobre ninguém, meu ferinha.
Ele chove.
Nos seus próprios termos, ele chove.
E por isso a chuva parou de ligar.

E eu fiz de tudo pra não me importar com nada disso, mas, pego de surpresa assim, num domingo à noite, depois de mais uma bateria de chopps que não deram em nada, confesso que cometi essa gafe de ficar comovido.

***

E "gonna away now" é uma placa de sinalização que devíamos obedecer com mais frequência mesmo, concordo contigo.

sábado, 13 de setembro de 2025

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Intransponível


JUL/2022

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Pois então não se acostume com a emoção, porque depois viver sem ela será difícil.

sábado, 6 de setembro de 2025

deus na escuridão - MÃE, valter hugo

 

Deus na escuridão
Valter Hugo Mãe

***

“As barrigas das mães não eram para visitas mordedoras. Predadores dentados não se atreveriam a chegar-lhes perto. As mães são mais que ferros e mais que tubarões, mais que crocodilos e mais que dinamites.”

“Quando nasce uma cria, há um planeta com seu nome onde só sua mãe habita.”

“...sumária e toda.”

“...meu irmão não teria atmosfera, seria ainda vulcânico...”

“Tinha muita higiene com Deus.”

“Ia ser tão limpo e sem culpa que haveria de comparar-se ao valor da paz.”

“Amamos mais o que vemos em perigo. Amamos mais quem vemos em perigo.”

“Meu pai via-se para tão longe que só poderia estar feito de distância.”

“Diz-se que a ilha já inventaria suas flores só pela memória, sem semente nem água.”

“A fome é uma certa morte à espera.”

“De todas as vezes que fazia o que era pedido ou esperado, eu era bonito. Não havia melhor coisa para ser.”

“Tinha uma infância aguda. Sofria de infantilidade drástica, máxima.”

“Eram a matemática dos afectos. E eu disse: as mães. Eu disse: minha mãe vai educar este dinheiro, minha senhora.”

“Quando minha mãe puser as mãos neste dinheiro, vai levá-lo onde adube, onde cubra, onde cure, onde faça justiça. Este dinheiro, minha senhora, vai ser inteligente à força de minha mãe. Vai aprender uma lição de vida. Vai ser como um doutor. E eu ficarei feliz.”

“Assim se educa o dinheiro. Que por vezes se esquiva das mãos que o merecem. Esperneia por pudores, vergonhas e demasiadas etiquetas.”

“Pelo amor, sobretudo, que a santidade não dava aos homens da ilha. Só às mulheres.”

“O mar, essa imensa tristeza de água.”

“...tão feita de tempo e saúde...”

“Éramos pessoas puras em nossas incompletudes e derivas.”

“Quando não se acredita com o coração, é importante acreditar com os braços, com os pulmões ou com o estômago. A vida desafia por todo o lado, e a resistência tem de ir buscar sua ciência a qualquer pulsação, qualquer fluxo, qualquer golfada de ar. Até para amar. Maioria do amor é com os braços. Com a força das pernas, com a cabeça obstinada procurando soluções para proteger.”

“Avelharíamos casmurros como todos os velhos. A ficar de aspecto longínquo, todos antigos, como animais de outras épocas que procuram habitar ainda um planeta que foi embora à revelia.”

“O medo sempre pergunta sobre a culpa, porque a coragem constrói a partir da convicção de se merecer, ou não, vencer o obstáculo.”

“A solidão é sempre uma espécie de fim. O fim de um lugar.”

“A partilha de uma maravilha trazia mais maravilha ainda. E eu sentia-me orgulhoso de ter sabido daquilo primeiro. De ter merecido saber daquilo primeiro.”

“Na direção das minhas pessoas sagradas era, por natureza, o meu caminho.”

“...em redor de suas mães perfeitas, porque é o amor que aperfeiçoa.”

“Seria invisível no radar da fome.”

“A mesa estava posta. A sopa pelos pratos a parecer um jardim desfeito com beleza. Podiam ser nenúfares aquelas plantas de flutuar.”

“Comíamos a sopa e nossa mãe recomendava: só parar até ficar limpo o prato, porque a maravilha que se juntou no prato vai juntar-se inteirinha nas vossas barrigas, e as vossas barrigas vão pensar que são o Paraíso. Quando estávamos alimentados, salvos da fome, ela perguntava: onde fica o Paraíso. E nós dizíamos: aqui. Dentro de nós. Umas vezes no peito, outras vezes mais abaixo. Mas invariavelmente dentro de nós.”

“Eu deveria saber amar tanto que aceitasse a ausência. Se eu fosse maduro, se não fosse néscio, como me acusaram, eu deveria amar sem morrer perante a ausência.”

“Pouquinho ensinara que não se prometem a Deus sofrimentos nem sacrifícios porque, como as mães, Ele não nos quer ver sofrer.
Nunca prometas a Deus o teu sofrimento.
Ajuda Seus filhos a reencontrar o caminho de casa.
Devemos prometer cantar-Lhe, alimentar-Lhe os filhos, salvar-Lhe os animais, regar as plantas, semear pela terra toda, proteger os livros. Caminhar em visita. Ele dizia: quero que prometas, Felicíssimo. Eu quero que tu prometas que O ajudas, mas que não te provocarás a dor. Quem se vicia na dor desumaniza-se.”

“E minha maior obrigação será sempre a de aclamar o coração de minha mãe.”

“...o futuro é uma riqueza universal. Vai esperar a todos.”

“Quem eu era, sem ser muito, haveria de estar todo contido no que fazia.”

“Ainda que minha fuga fosse pela eternidade, uma fuga infinita, sem limite e sem aceitar negociação nem concessão, eu preparava-me para o gasto efêmero do corpo. Essa pressa que ele tem em exalar sua alma, entregar-se à terra, esquecer que nos serviu.”

“Que necessidade tem o corpo em começar a apodrecer, em todos os instantes ensaia sua falência. Ainda que nos sirva, é tão facilmente contra nós. Um inimigo que domesticamos pela metade. O corpo é um suicida. Por mais motivada a alma, por mais que o encantemos, ele progride para desistir.”

“Enquanto reeducávamos os pulmões, nos enchíamos um do outro, como se dentro de cada um voltasse a haver um espaço em que o outro entrava, sem ir embora. Sem jamais ir embora.”

“Quem prefere o amor vive no milagre, e o milagre é em toda parte.”

“...irremediavelmente assim, irremediavelmente juntos.”

sábado, 23 de agosto de 2025

MÃEgue


mangue
moisés alves

***

"Há sempre limitados modos
de não perder as estribeiras."

"É incrível esse tempo que nos resta.
Nunca sei o que faço com as sobras."

***

"Quando nos abraçamos
formamos um aparato químico-amoroso"

"A gente tenta manter o céu
sobre nossas cabeças. Nem sempre ganhamos.
Melhor: nem sempre se ganha uma perda."

"Mãe é onde estamos"

"Só há tempo para habitar a vida.
Nosso amor ao presente triunfa."

"Minha mãe exercita-se
em outras relações sintáticas.
A alma é um bem público."

"Ela fica tão leve
sem o peso dos passados"

***

"amor é quando
pequenos enunciados médicos
dizem é grave não estudamos
ainda essas tramas incuráveis
que pena"

"amor é quando a gente vai se devolvendo
sem escândalo à natureza"

"amor é quando você quer ficar
e seu saco de pancadas rasga"

"amor é quando você não quer mas seu corpo dança"

"amor é quando a partir de agora você assume
sua própria maternidade"

"amor é quando do galho um fruto cai"

"amor é quando você é o restauro
a usina a ruína o canteiro de obra"

"amor é quando você volta"

***

"agora que perdemos a localização das ilhas
estamos juntos nesse laço de abandono
de distância
a distância é quando uma mão alcança
a impossível manufatura das paixões"

***

"seres térmicos"

***

"Ataquei mortes estreitas
pondo poemas de grande beleza na zaga."

"Acusamos a vida pelo excesso
de pequenos milagres
não de enigmas. A vida está aí, pessoa,
Solta nas praças como um vira-lata"

***

"revoltas que retornam"

"rasga relações"

"além disso nossa fome
de expansão é bem restrita
a gente não se estica
como felinos, vírus e fascistas"

***

"Estar presente às vezes é tudo
que se pode dar como resposta."

"todo desencontro comove."

***

"da desaparição de um gesto"

***

"queremos ir e voltar
para um lugar irretornável"

***

"ainda lembra das finitas posturas
que um corpo conquista"

"uma verticalidade vital
é um corpo de pé"

***

"magia búfala"

***

"o luxo de ter o que todos têm
dois pulmões neon"

***

"minha memória
parou de tomar conta"

***

"que o vento arraste o pó"

"elas disseram
viva depois morra
basta"

***

"envolto numa solidão crua
ancestral muito digna"

"balançando numa temporalidade
solta de calendários"

"desse calor que sai das coisas
úmido ambulante sem passado"

***

"pensamentos bactericidas"

"a língua no osso
para soldar"

***

"ruínas celebram
nunca conservam"

"diante
de um acontecimento
você sensualiza
e exige referências
concentrado nos prazos
para a abertura de recursos"

***

"que pareço um tumulto"

"Mãe é um gesto atrás do outro,
Não adianta, é herança solta."

"Conhece-se a força de uma coisa
sobretudo através de sua ausência.
Restos são de grande beleza e
servem como vigas dos vários tempos
que nos cercam.
Às vezes abro uma porta e entro numa
estação de carícias que me interessa
violentamente.
A vida pede mais vida,
é a lei."

***

"rastros ocupam espaço
de tal modo
que seu desaparecimento
é inesgotável"

"como se isso domesticasse
esse rio que sangra"

"estamos impregnados
por essa instância impessoal
que não abraça nem desata"

***

"em algum momento atingimos
um ponto onde é necessário reconhecer
onde uma dor finda
a dor também nos abandona"

"a questão é como servir-se de
um resto que fica"

***

"crescer é muito inesperado"

***

"sobre a história mamífera desse país"

***

"quantos homens e mulheres
faltam nascer para que a terra
me dispense"

***

"impossíveis têm que ser respeitados"

***

"o passado anda agora
em nossa frente"

***

"quando um sumiço
finalmente some"

***

"isso que acontece pertence
aos povos dessa terra
nada pessoal
a glória é essa"

***

"desaparecer
é uma ferida"

***

"durar é justo
durar é uma atitude do mundo"

"minha mãe tem muitas línguas
tenho fissura quando ela
para numa que não é
nem lembrança
nem esquecimento"

***

"minha absurda falta de geometria"

***

"arquivo de uma fúria"

***

"Uma invariável
falta de enigma
por todos os lados"

"Minha mãe, como a sua,
se reparte em muitas outras
possibilidades de maternidade."

"Minha mãe alcança
uma frequência de desaparecimento
que me falta habilidade espírito
de aventura força vital câncer."

***

"palavras que cuidam de mim
desde criança são
esquizofrenicamente
de esquerda."

"a esta hora só quem chega é o deserto"

***

"Sei lá, o mais estranho no sofrimento
é que ele não aniquila."

***

"A agulha
desse século não reconhece
um LP de 1980. Esse tempo
não nos reconhece."

"Tudo é questão de soltar mais porção de vida
para aniquilar formas suburbanas de morte."

"O começo de nosso prazer
eu e ela não lembramos. O diagnóstico
acusa que o vício que temos
é esquecer o que somos."

"Amar mamãe é voraz, antibiográfico,
consta na futura perícia de minhas vísceras."

***

"Quando menos se espera
o sólido desaba"

***

"cansaços servem 
apenas para alimentar poemas"

"estou pronto
venha o que vier
mas só um momento"

***

"a vida é uma onda.
a onda viaja. a onda chega numa praia.
a onda volta. aceitamos de soslaio
o que vem o que vai embora."

"eu tenho um nome próprio.
você também.
vamos viver."