domingo, 1 de fevereiro de 2026

Palmeiras selvagens (2/?) [rendimentos normais decrescentes e o amor economicamente inviável]


E por falar em paradoxal, ultrajante e bizarro, aí vai uma pergunta filosoficapciosespeculativa, pense bem antes de responder em seu âmago:

E se, bem longe daqui, em uma noite escura e uivante, que por descuido da lua ficou de fora de todos os calendários já datilografados sobre esta imensa e desolada terra, uma palmeira é arrancada do solo profundo e adormecido por este louco e ensandecido vento devastador, que a faz desabar violentamente no duro tapete asfáltico de um breu absoluto, porém, sem ninguém para testemunhar a queda, ela (a palmeira) faz algum barulho ou apenas emite – no linguajar e ao modo particular das palmeiras - o mesmo som e a mesma fúria de um ciclone atravessando Saturno?

***

“...como a fileira de formigas entre os trilhos por onde passa o trem expresso, elas (as formigas) tão ignorantes do poder e da fúria como de um ciclone atravessando Saturno.”


***

Como toda especulação filosoficapciosespeculativa, isso não tem resposta correta, mas o que eu posso garantir é que as palmeiras usadas neste livro de forma alguma podem ser consideradas ambientalmente corretas, socialmente justas ou, principalmente - principalmente mesmo - economicamente viáveis.

E ainda menos de origem controlada.


Palmeiras Selvagens - William Faulkner (1939)
(Companhia das Letras, 2024)

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“Sim. No amor. Dizem que o amor morre entre duas pessoas. É mentira. Não morre. Simplesmente abandona você, vai embora, se você não é bom o bastante, digno o bastante. Não morre; quem morre é você. É como o oceano: se você não presta, se começa a empesteá-lo, ele te cospe fora em alguma parte para morrer. Você morre de qualquer jeito, mas prefiro me afogar no oceano a ser vomitada numa faixa perdida de praia e acabar secada pelo sol até me tornar uma mancha suja sem nome, com apenas 'Isto Foi' como epitáfio.”

*

“E a fome não está aqui... – Ela bateu na barriga dele com as costas da mão. – São só suas entranhas roncando. A fome está aqui.  – Tocou no peito dele. – Nunca se esqueça disso.

- Não esquecerei. Agora não.

“Mas poderá esquecer. Você já sentiu fome nas entranhas, por isso está com medo. Porque a gente sempre tem medo daquilo que suportou.”

*

“Ela alugou aquela claraboia.”

*

“Como coisas criadas para viver apenas na maior e mais asfixiante escuridão, como num cofre de banco ou talvez num pântano venenoso, não no ar nutritivo, rico e normal expelido por entranhas cheias de legumes...”

*

“Deus não vai deixa-la morrer de fome, pensava. Ela é valiosa demais. Ele caprichou demais nela. Mesmo quem criou todas as coisas deve gostar de algumas o bastante para querer guardá-las.”

*

“ – Em nome de Jesus Schopenhauer – disse McCord. – Que espécie de literatura de nona categoria é essa? Você ainda nem começou a passar fome. Ainda nem concluiu seu curso completo de indigência.”

*

“...um meio-fio suburbano e opulento...”

*

“...os gramados corrediços da meia-noite...”

*

“A gente não se dá conta do quão flexível é o dinheiro até trocá-lo por alguma coisa – disse. – Talvez seja isso que os economistas entendem por rendimentos normais decrescentes.”

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E, em nome de Jesus Schopenhauer e do Espírito Santo do FSC, assim como o amor selvagem é sempre economicamente inviável, enchentes e ciclones talvez sejam também um pouquinho ambientalmente incorretos e socialmente injustos, de alguma forma.

Ou seria o contrário?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Palmeiras selvagens (1/?) [desolação aquática: paradoxal, ultrajante e bizarro]


 “Duas horas mais tarde, ao crepúsculo, eles viram pelas vidraças gotejantes uma casa de fazenda em chamas. Justaposta a lugar nenhum e vizinha de nada, ela se erguia, uma límpida e contínua chama semelhante a uma pira fugindo rigidamente do próprio reflexo, queimando no escuro acima da desolação aquática com um caráter paradoxal, ultrajante e bizarro.”


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Palmeiras Selvagens - William Faulkner (1939)
(Companhia das Letras, 2024)

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"Quem tem casa pode se mudar"
Father Don Doll | 1984 | Alasca

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Verdade, essa imagem já apareceu por aqui antes.
Apenas me repetindo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Eu te farei companhia

Lonely CityBill Callahan
Álbum: My Days of 58 (2026)

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Loooooooooonely city
Loooooooooonely city
(I'll keep you company)

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Quase dez anos desde a última vez do Bill Callahan por aqui:

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Estamos sempre fazendo aniversário de nós mesmos ou de alguma coisa.
E Jesus também.

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"So let us thriiiiive, let us thriiiiiive, let us thriiiiiive, let us thrive
Just like the weeds, we curse sometimes."

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

tanta coisa ou apenas uma:

 


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"I feel like a deer in the headlights of love."
(Todd La Rue)

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"Honey, you've got a big storm coming."

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"People say that time heals all wounds."

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Veremos.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Close-Up

 

Close-up
(Abbas Kiarostami, 1990, Irã)

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"Foi por isso que me refugiei em um livro, que li e reli inúmeras vezes, para curar meu coração."

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Il giorno della prima di Close Up
(Nanni Moretti, 1996, Itália)

sábado, 20 de setembro de 2025

balancemos, balençamos: hontem e oje


JUL/2022

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inicialmente, te emprestei o meu,
depois passei a carregar dois lenços,
um em cada bolso.

quando chorava usava o da direita,
quando você chorava, te oferecia o da esquerda.

não por nada não, viu, mas só
com propósitos puramente sanitários,
considerando com cautela o ambiente hospitalar.

às vezes, usava os dois sem perceber,
às vezes, te oferecia ambos
enxugava nas costas da mão
ou deixava pingar solto nas suas omoplatas.

e houve ocasiões em que choramos aleatoriamente
nestes paninhos
misturando muco e lágrima meus e seus
tanto no da direita, quanto no da esquerda e vice-versa,
sem nenhuma cerimônia.

hoje vi que você ainda usava o lenço de anteontem,
mesmo eu sendo tão cuidadoso em renovar o estoque
com peças limpas a cada nova visita
à UTI humanizada.

te perguntei o motivo, mas, sem esperar resposta,
ofereci de pronto um outro novinho
apenas para descobrir que você
poupava no canto da bolsa os dois lencinhos limpos
de hontem e oje.

e pensar que houve uma noite cega e suja nessa cidade em que alguém se virou sem tato de seda ou microfibra e nos disse:
"- quem ainda carrega lenços nesse mundo?"

(oje, SET/2025)

domingo, 14 de setembro de 2025

soa o gongo



JUL/2022

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de um lado do ringue
oitenta e dois quilos
de bronquite e tártaro
do outro lado do ringue,
o cruzado de esquerda
mais insosso da cidade

soa o gongo do primeiro assalto
e sigo gastando todo o seu
dinheiro em dívidas
de apostas nas
lutas que não são nada bonitas de se ver

minha dívida eterna de córnea e retina

assisto atento ao município
com a habilidade de escotista
nestes campos de bocejo
em que o menos interessante é sorte

e rabisco os cenários,
os movimentos,
os caracteres
nesse meu caderno de vários erros consecutivos,

os mais dissimulados
erros

e quando falta a criatividade
o que assalta é o algoritmo
ou a perspicácia sincera
do daguerreótipo
imparcial

onde há ínfima novidade ou luz,
volta ligeira no quarteirão
relaxa pupilas e
traz alívio de ar fresco ilusório

testemunho na praça central
que, descida do palanque da razão,
a felicidade agora está descalça no pátio
garantindo sua satisfação
a preços módicos

e nos sons e ruídos incidentais da trilha
de rua: os novos e já tão grandiosos artistas

o jazz desconfia, discorda e de tudo duvida
o blues procrastina suas dores
o choro segura o choro, o samba camba,
a bossa, sova

movimento perpétuo em
máquina de madeira, metal, couro, nylon
carne e fôlego

e, investigando, sigo mais um pouco e ainda a pé,
afinal, um cara,
quando é um rústico, um drástico, um dramático, um trágico, um apocalíptico,
ele anda a pé

seja na chuva sovina daqueles sete anos
seja neste rascante, incendiário e sisífico mês de agosto

colecionando azarões perfeitos
- estrutura e formação -
constituição bem trabalhada
de viver beijando a lona
sem jamais se permitir
jogar a toalha

lutas nada bonitas de se ver

então saquemos dos nossos próprios bolsos
e façamos nossas apostas por conta e risco

a cidade não vai esperar
a reunião do conselho da tesouraria

(2019)

***


Shining (2025)
Mac DeMarco

***

Sim, tudo muito bom, tudo muito bem, muito bonito, muito falsetístico, muito equestre, muito puro.

Mas a questão é que o sol já não brilha sobre ninguém, meu ferinha.
Ele chove.
Nos seus próprios termos, ele chove.
E por isso a chuva parou de ligar.

E eu fiz de tudo pra não me importar com nada disso, mas, pego de surpresa assim, num domingo à noite, depois de mais uma bateria de chopps que não deram em nada, confesso que cometi essa gafe de ficar comovido.

***

E "gonna away now" é uma placa de sinalização que devíamos obedecer com mais frequência mesmo, concordo contigo.

sábado, 13 de setembro de 2025

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Intransponível


JUL/2022

***

Pois então não se acostume com a emoção, porque depois viver sem ela será difícil.

sábado, 6 de setembro de 2025

deus na escuridão - MÃE, valter hugo

 

Deus na escuridão
Valter Hugo Mãe

***

“As barrigas das mães não eram para visitas mordedoras. Predadores dentados não se atreveriam a chegar-lhes perto. As mães são mais que ferros e mais que tubarões, mais que crocodilos e mais que dinamites.”

“Quando nasce uma cria, há um planeta com seu nome onde só sua mãe habita.”

“...sumária e toda.”

“...meu irmão não teria atmosfera, seria ainda vulcânico...”

“Tinha muita higiene com Deus.”

“Ia ser tão limpo e sem culpa que haveria de comparar-se ao valor da paz.”

“Amamos mais o que vemos em perigo. Amamos mais quem vemos em perigo.”

“Meu pai via-se para tão longe que só poderia estar feito de distância.”

“Diz-se que a ilha já inventaria suas flores só pela memória, sem semente nem água.”

“A fome é uma certa morte à espera.”

“De todas as vezes que fazia o que era pedido ou esperado, eu era bonito. Não havia melhor coisa para ser.”

“Tinha uma infância aguda. Sofria de infantilidade drástica, máxima.”

“Eram a matemática dos afectos. E eu disse: as mães. Eu disse: minha mãe vai educar este dinheiro, minha senhora.”

“Quando minha mãe puser as mãos neste dinheiro, vai levá-lo onde adube, onde cubra, onde cure, onde faça justiça. Este dinheiro, minha senhora, vai ser inteligente à força de minha mãe. Vai aprender uma lição de vida. Vai ser como um doutor. E eu ficarei feliz.”

“Assim se educa o dinheiro. Que por vezes se esquiva das mãos que o merecem. Esperneia por pudores, vergonhas e demasiadas etiquetas.”

“Pelo amor, sobretudo, que a santidade não dava aos homens da ilha. Só às mulheres.”

“O mar, essa imensa tristeza de água.”

“...tão feita de tempo e saúde...”

“Éramos pessoas puras em nossas incompletudes e derivas.”

“Quando não se acredita com o coração, é importante acreditar com os braços, com os pulmões ou com o estômago. A vida desafia por todo o lado, e a resistência tem de ir buscar sua ciência a qualquer pulsação, qualquer fluxo, qualquer golfada de ar. Até para amar. Maioria do amor é com os braços. Com a força das pernas, com a cabeça obstinada procurando soluções para proteger.”

“Avelharíamos casmurros como todos os velhos. A ficar de aspecto longínquo, todos antigos, como animais de outras épocas que procuram habitar ainda um planeta que foi embora à revelia.”

“O medo sempre pergunta sobre a culpa, porque a coragem constrói a partir da convicção de se merecer, ou não, vencer o obstáculo.”

“A solidão é sempre uma espécie de fim. O fim de um lugar.”

“A partilha de uma maravilha trazia mais maravilha ainda. E eu sentia-me orgulhoso de ter sabido daquilo primeiro. De ter merecido saber daquilo primeiro.”

“Na direção das minhas pessoas sagradas era, por natureza, o meu caminho.”

“...em redor de suas mães perfeitas, porque é o amor que aperfeiçoa.”

“Seria invisível no radar da fome.”

“A mesa estava posta. A sopa pelos pratos a parecer um jardim desfeito com beleza. Podiam ser nenúfares aquelas plantas de flutuar.”

“Comíamos a sopa e nossa mãe recomendava: só parar até ficar limpo o prato, porque a maravilha que se juntou no prato vai juntar-se inteirinha nas vossas barrigas, e as vossas barrigas vão pensar que são o Paraíso. Quando estávamos alimentados, salvos da fome, ela perguntava: onde fica o Paraíso. E nós dizíamos: aqui. Dentro de nós. Umas vezes no peito, outras vezes mais abaixo. Mas invariavelmente dentro de nós.”

“Eu deveria saber amar tanto que aceitasse a ausência. Se eu fosse maduro, se não fosse néscio, como me acusaram, eu deveria amar sem morrer perante a ausência.”

“Pouquinho ensinara que não se prometem a Deus sofrimentos nem sacrifícios porque, como as mães, Ele não nos quer ver sofrer.
Nunca prometas a Deus o teu sofrimento.
Ajuda Seus filhos a reencontrar o caminho de casa.
Devemos prometer cantar-Lhe, alimentar-Lhe os filhos, salvar-Lhe os animais, regar as plantas, semear pela terra toda, proteger os livros. Caminhar em visita. Ele dizia: quero que prometas, Felicíssimo. Eu quero que tu prometas que O ajudas, mas que não te provocarás a dor. Quem se vicia na dor desumaniza-se.”

“E minha maior obrigação será sempre a de aclamar o coração de minha mãe.”

“...o futuro é uma riqueza universal. Vai esperar a todos.”

“Quem eu era, sem ser muito, haveria de estar todo contido no que fazia.”

“Ainda que minha fuga fosse pela eternidade, uma fuga infinita, sem limite e sem aceitar negociação nem concessão, eu preparava-me para o gasto efêmero do corpo. Essa pressa que ele tem em exalar sua alma, entregar-se à terra, esquecer que nos serviu.”

“Que necessidade tem o corpo em começar a apodrecer, em todos os instantes ensaia sua falência. Ainda que nos sirva, é tão facilmente contra nós. Um inimigo que domesticamos pela metade. O corpo é um suicida. Por mais motivada a alma, por mais que o encantemos, ele progride para desistir.”

“Enquanto reeducávamos os pulmões, nos enchíamos um do outro, como se dentro de cada um voltasse a haver um espaço em que o outro entrava, sem ir embora. Sem jamais ir embora.”

“Quem prefere o amor vive no milagre, e o milagre é em toda parte.”

“...irremediavelmente assim, irremediavelmente juntos.”

sábado, 23 de agosto de 2025

MÃEgue


mangue
moisés alves

***

"Há sempre limitados modos
de não perder as estribeiras."

"É incrível esse tempo que nos resta.
Nunca sei o que faço com as sobras."

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"Quando nos abraçamos
formamos um aparato químico-amoroso"

"A gente tenta manter o céu
sobre nossas cabeças. Nem sempre ganhamos.
Melhor: nem sempre se ganha uma perda."

"Mãe é onde estamos"

"Só há tempo para habitar a vida.
Nosso amor ao presente triunfa."

"Minha mãe exercita-se
em outras relações sintáticas.
A alma é um bem público."

"Ela fica tão leve
sem o peso dos passados"

***

"amor é quando
pequenos enunciados médicos
dizem é grave não estudamos
ainda essas tramas incuráveis
que pena"

"amor é quando a gente vai se devolvendo
sem escândalo à natureza"

"amor é quando você quer ficar
e seu saco de pancadas rasga"

"amor é quando você não quer mas seu corpo dança"

"amor é quando a partir de agora você assume
sua própria maternidade"

"amor é quando do galho um fruto cai"

"amor é quando você é o restauro
a usina a ruína o canteiro de obra"

"amor é quando você volta"

***

"agora que perdemos a localização das ilhas
estamos juntos nesse laço de abandono
de distância
a distância é quando uma mão alcança
a impossível manufatura das paixões"

***

"seres térmicos"

***

"Ataquei mortes estreitas
pondo poemas de grande beleza na zaga."

"Acusamos a vida pelo excesso
de pequenos milagres
não de enigmas. A vida está aí, pessoa,
Solta nas praças como um vira-lata"

***

"revoltas que retornam"

"rasga relações"

"além disso nossa fome
de expansão é bem restrita
a gente não se estica
como felinos, vírus e fascistas"

***

"Estar presente às vezes é tudo
que se pode dar como resposta."

"todo desencontro comove."

***

"da desaparição de um gesto"

***

"queremos ir e voltar
para um lugar irretornável"

***

"ainda lembra das finitas posturas
que um corpo conquista"

"uma verticalidade vital
é um corpo de pé"

***

"magia búfala"

***

"o luxo de ter o que todos têm
dois pulmões neon"

***

"minha memória
parou de tomar conta"

***

"que o vento arraste o pó"

"elas disseram
viva depois morra
basta"

***

"envolto numa solidão crua
ancestral muito digna"

"balançando numa temporalidade
solta de calendários"

"desse calor que sai das coisas
úmido ambulante sem passado"

***

"pensamentos bactericidas"

"a língua no osso
para soldar"

***

"ruínas celebram
nunca conservam"

"diante
de um acontecimento
você sensualiza
e exige referências
concentrado nos prazos
para a abertura de recursos"

***

"que pareço um tumulto"

"Mãe é um gesto atrás do outro,
Não adianta, é herança solta."

"Conhece-se a força de uma coisa
sobretudo através de sua ausência.
Restos são de grande beleza e
servem como vigas dos vários tempos
que nos cercam.
Às vezes abro uma porta e entro numa
estação de carícias que me interessa
violentamente.
A vida pede mais vida,
é a lei."

***

"rastros ocupam espaço
de tal modo
que seu desaparecimento
é inesgotável"

"como se isso domesticasse
esse rio que sangra"

"estamos impregnados
por essa instância impessoal
que não abraça nem desata"

***

"em algum momento atingimos
um ponto onde é necessário reconhecer
onde uma dor finda
a dor também nos abandona"

"a questão é como servir-se de
um resto que fica"

***

"crescer é muito inesperado"

***

"sobre a história mamífera desse país"

***

"quantos homens e mulheres
faltam nascer para que a terra
me dispense"

***

"impossíveis têm que ser respeitados"

***

"o passado anda agora
em nossa frente"

***

"quando um sumiço
finalmente some"

***

"isso que acontece pertence
aos povos dessa terra
nada pessoal
a glória é essa"

***

"desaparecer
é uma ferida"

***

"durar é justo
durar é uma atitude do mundo"

"minha mãe tem muitas línguas
tenho fissura quando ela
para numa que não é
nem lembrança
nem esquecimento"

***

"minha absurda falta de geometria"

***

"arquivo de uma fúria"

***

"Uma invariável
falta de enigma
por todos os lados"

"Minha mãe, como a sua,
se reparte em muitas outras
possibilidades de maternidade."

"Minha mãe alcança
uma frequência de desaparecimento
que me falta habilidade espírito
de aventura força vital câncer."

***

"palavras que cuidam de mim
desde criança são
esquizofrenicamente
de esquerda."

"a esta hora só quem chega é o deserto"

***

"Sei lá, o mais estranho no sofrimento
é que ele não aniquila."

***

"A agulha
desse século não reconhece
um LP de 1980. Esse tempo
não nos reconhece."

"Tudo é questão de soltar mais porção de vida
para aniquilar formas suburbanas de morte."

"O começo de nosso prazer
eu e ela não lembramos. O diagnóstico
acusa que o vício que temos
é esquecer o que somos."

"Amar mamãe é voraz, antibiográfico,
consta na futura perícia de minhas vísceras."

***

"Quando menos se espera
o sólido desaba"

***

"cansaços servem 
apenas para alimentar poemas"

"estou pronto
venha o que vier
mas só um momento"

***

"a vida é uma onda.
a onda viaja. a onda chega numa praia.
a onda volta. aceitamos de soslaio
o que vem o que vai embora."

"eu tenho um nome próprio.
você também.
vamos viver."

domingo, 17 de agosto de 2025

a água é uma MÃEquina do tempo


A água é uma máquina do tempo
Aline Motta

***

"nem todas as mães vingam"

*

"Devo a você a ansiedade da perfeição, não há conserto quando se falta uma peça."

*

"Fazer o que pôde custou-lhe a vida."

*

"Odiava quando chamavam minha mãe de guerreira. Seu corpo não era um campo de batalhas."

*

"Mortos são corpos do mundo que não são mais corpos de ninguém.
Um corpo separado de sua memória não é mais uma pessoa."

*

"Estávamos nadando ou sendo arrastados pelas ondas?"

*

"Se você estiver consciente durante a morte, não sobreviverá."

*

"Tudo o que não tive será dela."

*

"Nós apenas não sentíamos o seu desaparecimento.
Gases formavam fantasmas que tinham o seu nome."

*

"Se eu soubesse teria soprado um par de pulmões no lugar do seu útero."

*

"...respirar o vento da eternidade..."

*

"A filha vira uma ancestral da mãe
memória e veículo
A água é uma máquina do tempo"