sábado, 14 de fevereiro de 2026

Palmeiras selvagens (3/?) + É minha e me pertence (3) [verdade matemática do ensolarado intemporal vazio]


Como 1 e 1 são vários:

cada canto;
cada abandono;
cada coqueiro
(solitário ou gregário, selvagem, urbano ou suburbano).

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“Porém, os dias em si continuavam iguais – a mesma recapitulação estacionária do intervalo dourado entre a alvorada e o crepúsculo, os longos dias tranquilos e idênticos, a imaculada hierarquia monótona dos meios-dias cheios do quente mel solar, através dos quais o ano moribundo vagava na degradação vermelha-e-amarela das folhas de árvores decíduas, sem origem, indo para lugar nenhum.”

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“...solidão plena de sol...”

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“...tédio muscular absoluto...”


AGO/2024

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"Então um dia resolveu fazer um calendário, uma ideia inocentemente concebida não pela mente, pelo desejo de ter um calendário, mas pelo tédio muscular absoluto, e realizada com o puro e tranquilo prazer sensorial de um homem talhando uma caixa num caroço de pêssego ou o pai-nosso numa cabeça de alfinete; desenhou o calendário com capricho no bloco, numerando os dias, planejando usar diversas cores apropriadas para os domingos e feriados. Imediatamente descobriu que havia perdido a conta dos dias, mas isto só aumentou a expectativa, prolongando o trabalho, tornando o prazer mais complexo, a caixa de pêssegos deveria ser dupla, a reza deveria estar em código. Por isso voltou para aquela primeira manhã em que McCord e ele se agacharam junto da água, cujo nome e data sabia, então contou para diante, reconstruindo de cabeça as sonolentas demarcações entre uma madrugada e outra, desembaraçando uma a uma da trama áspera como vinho e silenciosa como mel da solidão sem marés, as terças e sextas e os domingos perdidos; quando de repente lhe ocorreu que podia comprovar os números, estabelecer a verdade matemática do ensolarado intemporal vazio no qual as unidades diárias haviam desvanecido, pelas datas dos intervalos entre os períodos menstruais de Charlote; sentiu-se como um velho contemplativo apoiado por um cajado nas antigas colinas sírias movimentadas por ovelhas deve ter se sentido após tropeçar acidentalmente em alguma fórmula alexandrina que provava as verdades estelares que ele havia observado a cada noite toda a vida e sabia ser verdadeiras, embora não soubesse como nem por quê.”

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"...desembaraçando uma a uma da trama áspera como vinho e silenciosa como mel da solidão sem marés..."

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“Descobri há uns tempos que é o ócio que cria todas as nossas virtudes, nossas qualidades mais suportáveis – a contemplação, a equanimidade, a preguiça, deixar os outros em paz; boa digestão mental e física: a sabedoria que é se concentrar nos prazeres da carne – comer e evacuar e fornicar e se sentar ao sol -, dos quais nada é melhor, nada se compara, nada mais em todo este mundo do que simplesmente viver durante o curto espaço em que nos emprestam alento, do que estar vivo e consciente...”

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“...com a indelével marca de dez mil subxerifes sulinos, urbanos e suburbanos...”

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