domingo, 9 de março de 2025

sexta-feira, 7 de março de 2025

frio e ambicioso



Entre meios-termos, nove-horas e águas termais, submarino frio e ambicioso atinge fronteiras tropicais.

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Arcade Fire
I'm Sleeping in a Submarine
(2003)

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"What bravery"

domingo, 23 de fevereiro de 2025

festa na praia

Festa na praia: gato infeliz lamenta a balbúrdia e a decadência
(SET/2023)


Festa na praia: gato infeliz lamenta a balbúrdia e a decadência
(detalhe)

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"Till the low tide comes to swallow pain"

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"The memories we've buried
Have just taken seed
When springtime comes
They'll turn into weeds"

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Dr. Dog - The Beach
Álbum: Fate (2008)

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"You know fate has a funny way
Of coming around"

domingo, 16 de fevereiro de 2025

ainda é só o começo


Fim, Fernanda Torres (2013)

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“A queda é a maior ameaça para o idoso. 'Idoso', palavra odienta. Pior, só 'terceira idade'. A queda separa a velhice da senilidade extrema. O tombo destrói a cadeia que liga a cabeça aos pés. Adeus, corpo. Em casa, vou de corrimão em corrimão, tateio móveis e paredes, e tomo banho sentado. Da poltrona para a janela, da janela para a cama, da cama para a poltrona, da poltrona para a janela.”

[...]

“...tudo muito triste e civilizado...”

[...]

“...um criadouro de deformações neuróticas das gerações que lhe serviram de pasto.”

[...]

“Todos aguardavam a expiação, o mea-culpa que, segundo a teoria, romperia com as mazelas psíquicas que lhe mantinham fechadas as portas da felicidade.”

[...]

“...o futuro se define cedo.”

[...]

A estrela-d'alva no céu desponta... Estrela-d'alva é fim de festa. Está ficando azul... o céu... anil. Odeio o amanhecer. Angústia filha da putíssima.”

[...]

“Foi a infância da minha velhice.”

[...]

“É o que sempre procurei, esse não se importar com o que me cerca, não sofrer, não sentir. Como é bom, meu Deus.”

[...]

“Os coveiros lacraram a cova com as pás besuntadas de cimento, dando um inusitado toque de reforma de banheiro à cerimônia.”

[...]

“Amar estava na ordem do dia.”

[...]

“Leu Platão, O banquete, com o grupo de estudos, e descobriu-se andrógina. Algum deus maldito havia cortado ao meio seu corpo de origem, separando-a do homem dela. Queria encontra-lo, reavê-lo. À noite, fantasiou ser costurada de volta, ponto por ponto, pele com pele, sentiu calafrios e dormiu excitada. Ruth só esqueceu de prestar atenção no alerta do sábio: ‘Só se ama aquilo que não se tem’.”

[...]

“Me tornei alheio ao drama de terceiros.”

[...]

“Decidi não mais colaborar com os laboratórios, me vinguei de forma sistemática, atrapalhando a preciosa pesquisa deles. Fornecia dados fraudulentos, alegava tonturas, dores no peito que não existiam. Me revelei um rato anárquico, perigoso, que planejava destruir a megalomania científica dos reguladores de humor, frustrar o delírio dos que pretendiam controlar meu desespero. Tive uma melhora considerável nesse período, gostava de ver a surpresa do doutor diante do quadro que eu descrevia. Estava na cara que o Péricles estava perdido. E, mesmo antes, quando eu ainda não blefava sintomas, ele também estava perdido. Um clínico saberia diagnosticar uma pancreatite fingida, mas o psico Péricles seguia à risca as estatísticas americanas, as tabelas de comportamento da Pfizer, da Roche, sem perceber que eu fazia o que o homem faz desde que se entendeu por gente: eu mentia e me divertia. Não há remédio pra isso.”

[...]

“...tatibitate estereofônico...”

[...]

“Combatia um demônio chamado civilização.”

sábado, 15 de fevereiro de 2025

solene terreno imenso

 




Leste Vila Nova, MAI/23

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"a dureza real de quem é pedra
que a volúpia do atrito lapida
esse brilho tenaz que quase cega
é ventura do ventre da ferida"

[...]

"natureza tão sólida de tinta
que o frágil atrito transporta
esse risco voraz te faz faminta
e a rasura te move em linha torta"

[...]

"do ser ao pó é só carbono
solene, terreno, imenso
perene, pequeno, humano."

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Patrício, o vendedor de bananas

 


Ilhéus-BA, OUT/24


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Os Incríveis - Vendedor de bananas

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"...olha a banananananica,
olha a bananamamaçã..."

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Ouro, Prata, Da Terra, Figo, São Tomé, D'água...

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Ouro e Prata tá difícil.
Tem categoria Bronze?

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Patrício foi ali e já volta.
Vai escolhendo, freguesa.

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Jorge só Ben, puro e belo, mas esqueceu de catalogar a banananinaninanina, de Antonina.

Antonina-PR, JUN/2019

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Mas aí já são outros vendedores, outra freguesia:

Bananeira Brass Band - Canta Galo

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"O galo cantô moçada, vâmo trabalhá."

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"Eu sou um menino que precisa de dinheiro."

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[#potassioneles]

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Música/Cinema Salva(m)! (50): deep seek in your heart

O passado é um animal grotesco.

I'm Here, 2010
Spike Jonze

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"Man is a robot with defects"
Emil Cioran

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"the past is a grotesque animal
and in its eyes you see
how completely wrong you can be
how completely wrong you can be"

O passado mostrará.
O amanhontem nos dirá.

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The Past Is a Grotesque Animal
of Montreal

The past is a grotesque animal
And in its eyes you see
How completely wrong you can be
How completely wrong you can be
The sun is out, it melts the snow that fell yesterday
Makes you wonder why it bothered
I fell in love with the first cute girl that I met
Who could appreciate Georges Bataille
Standing at Swedish festival discussing "Story of the Eye"
Discussing "Story of the Eye"
It's so embarrassing to need someone like I do you
How can I explain, I need you here and not here too
How can I explain, I need you here and not here too
I'm flunking out, I'm flunking out, I'm gone, I'm just gone
But at least I author my own disaster
At least I author my own disaster
Performance breakdown and I don't want to hear it
I'm just not available
Things could be different but they're not
Things could be different but they're not
The mousy girl screams, "Violence! Violence!"
The mousy girl screams, "Violence! Violence!"
She gets hysterical because they're both so mean
And it's my favorite scene
But the cruelty's so predictable
It makes you sad on the stage
Though our love project has so much potential
But it's like we weren't made for this world
(Though I wouldn't really want to meet someone who was)
Do I have to scream in your face?
I've been dodging lamps and vegetables
Throw it all in my face, I don't care
Let's just have some fun
Let's tear this shit apart
Let's tear the fucking house apart
Let's tear our fucking bodies apart
But let's just have some fun
Somehow you've red-rovered the gestapo circling my heart
And nothing can defeat you
No death, no ugly world
You've lived so brightly
You've altered everything
I find myself searching for old selves
While speeding forward through the plate glass of maturing cells
I've played the unraveler, the parhelion
But even apocalypse is fleeting
There's no death, no ugly world
Sometimes I wonder if you're mythologizing me like I do you
Mythologizing me like I do you
We want our film to be beautiful, not realistic
Perceive me in the radiance of terror dreams
And you can betray me
You can, you can betray me
But teach me something wonderful
Crown my head, crowd my head
With your lilting effects
Project your fears on to me, I need to view them
See, there's nothing to them
I promise you, there's nothing to them
I'm so touched by your goodness
You make me feel so criminal
How do you keep it together?
I'm all, all unraveled
But you know, no matter where we are
We're always touching by underground wires
I've explored you with the detachment of an analyst
But most nights we've raided the same kingdoms
And none of our secrets are physical
None of our secrets are physical
None of our secrets are physical now

***


E a gente bem que podia dançar essa qualquer hora, hein!?
Yep, always in a electro-pop style, like a robot from 1984.

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"The price of anything is the amount of life you exchange for it."
Henry David Thoreau

sábado, 25 de janeiro de 2025

Convenção do Reino Vegetal

 

A equipe de jornalismo chegou atrasada para a Convenção do Reino Vegetal.
No pátio externo onde acontecia a recepção dos participantes, a fila já estava consideravelmente longa.

O fotógrafo levantou a câmera acima da própria cabeça, com os braços esticados o máximo que pôde, mas na imagem não foi possível distinguir a mesa de credenciamento a frente das tantas pontas reluzentes que compunham a miríade de coroas amontoadas sobre cabecinhas carecas indiscerníveis.


Constatou-se que os reis são mesmo todos baixinhos, pequeníssimos, mediocremente dotados de estatura, mas, segundo um representante comercial, insatisfeito por ter que trabalhar em um domingo de sol e que não quis ser identificado, há uma indústria artificiosa que compensa essa impressão de pequenez com o truque canhestro de alongar grosseiramente o comprimento das coroas.

" - É simplesmente ridículo", - ele nos disse com um sorriso indignado, "quando se para pra pensar a respeito, qualquer um vê que eles são uns nanicos, mas, inexplicavelmente, os súditos não percebem."

Nossa equipe constatou que, realmente, os súditos não identificam o simplório estratagema e olham de baixo para cima mesmo quando são bem mais altos que a realeza a que se dirigem, em um malabarismo geométrico de ótica paradoxal e dilemática de inversão de classes que faria Maurits Cornelis Escher ou Noam Chomsky ficarem constrangidos.

Observamos que alguns reizicos, não satisfeitos com a coroa exuberante, ainda se valem - sem cerimônia - do recurso do salto alto.

 E enquanto alguns ostentam a majestade no topo do calvo cocoruto, outros conseguem ainda, posicionar a cabeça acima da própria coroa, em um ato desesperado, extravagante e atrapalhado por validação social.


Na próxima edição você conhecerá mais profundamente a azeda opinião dos abacaxis sobre a deepweb dos vegetais orgânicos e a taxação dos supermegalatifúndios:

" - Nós matamos todos os vegetais que viviam aqui antes de nós e construímos quilômetros dessa maldita cerca pontiaguda, essa terra é nossa por direito", esbraveja um dos nossos entrevistados.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

sábado, 14 de dezembro de 2024

analgias, tiques e pequenas falhas locomotoras


“E a maldição de começar a envelhecer. No meio da noite, no meio do mundo, luz de vagalume lambendo trevas.”

[...]

“...talvez a falta de um braço protetor sobre os ombros ou em torno da cintura, jardins e crepúsculos expõem nossas carências e fragilidades, o corpo produz analgias, tiques, pequenas falhas locomotoras para denunciar sua solidão.”

[...]

“Já inventariei todos os ruídos da casa, todos os silêncios.”

[...]

“Atenção passageiros para o dia, queiram tomar seus lugares. Entrego a cidade, com seus roubos, estupros e assassinatos, aos seus legítimos donos. Sou o guardião da noite, encerro meu turno. Agora posso dormir.”

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Viver é prejudicial à saúde
Jamil Snege

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Inventariante de ruídos.
Inventariante de silêncios.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

ânsia burra nº 542

 

“Ler – é só o que tenho feito, essa ânsia burra de buscar a pedra filosofal, a epifania da linguagem, a revelação da escritura, o verbo ardente escandindo a palavra mágica que desvela o mistério. Se não tivesse me fatigado de Deus, poderia pilotar o barco da minha insônia em bem-aventurança até a margem da manhã seguinte. Se não tivesse me fatigado do amor, dos tédios e silêncios que o pontuam, eu poderia embeber meus sentidos no torpor de outro corpo. Se não tivesse me fatigado da ideia de morte, eu me agarraria com fervor à vida que sobrevive ao pequeno morrer de cada dia. A lucidez é o mais cáustico dos venenos. E não há espírito que resista à lenta deterioração do corpo. Um homem de meia-idade, nu e sozinho no bojo da noite, sem uma contrição ou um orgasmo, recusando a introspecção que só conduz a ruínas, é um feto desidratado exposto na mesa de autópsia do mundo. Precisa se agarrar ao útero mais próximo, pegar carona na vida que passa ao lado, fincar seu bico de molusco faminto na plenitude de sua presa. Minha filha é minha presa, Harry é minha presa, alguns amigos sobre os quais lanço meus tentáculos com um misto de afeto e repugnância, sim, sou o torvo, o torpe, o que maneja unhas infectadas, embaralhando palavras e navalhas, escondendo na manga a lâmina enferrujada, o ferrão, a baba pegajosa do pequeno monstro solitário.”

[...]

“Gostaria que alguém me dissesse por que tenho de ser o limítrofe, o quase, o relativamente, o por pouco. Até há algum tempo atribuí minha falta de brilho aos azares da sorte, à cidade, ao país, ao meio, à indolência, ao ser esquivo e esquizo que sou. Hoje percebo nitidamente que me falta é talento, fervor, febre criadora. Aquela centelha a que chamam gênio, capaz de embaralhar as verdades aceitas e propor o novo aos olhos pasmos da realidade. Eis o que me falta: a capacidade de exprimir isso de maneira original, sem o já feito e o já pronto, o vulgar lugar-comum, a inércia da linguagem que transforma o dito numa dublagem do que deveria ser dito. Ah, merda, se eu pudesse rasgar com as unhas a pele das palavras, romper seu invólucro acústico, liberar o feto coaxante que habita em seu bojo, ouvir suas imprecações de cartilagem e muco – um som que fosse a extrusão de membranas malformadas sobrenaturando o mundo...”

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Viver é prejudicial à saúde
Jamil Snege

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Rasgando com a unha a pele das palavras:


Mortal Loucura - Caetano Veloso e José Miguel Wisnik

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

existo - não sou


 “A vida é muito estranha. Já gastei a minha cota de mulheres, já amei e desamei, fui amado e desamado, mas de repente um arroubo juvenil brota lá dentro e eu me sinto tolo, núbil e apaixonado. Por nenhuma mulher em particular, mas por qualquer mulher – contanto que me olhe com uns olhos redondos de ternura, me fale com uma voz macia, pergunte se dormi bem, se me alimentei, se senti falta dela. Arroubos. Sou um sujeito totalmente à margem do mercado amoroso ou sexual. Uma carreira profissional estagnada, uma aparência que não é das melhores, o desencanto da idade, a indiferença do mundo. Cultivo hábitos antissociais e saberes inúteis. Sou capaz de discorrer sobre um monte de bobagens, identifico árvores, pássaros, minérios. Cozinho razoavelmente. Consigo discutir durante cinco minutos com especialistas de qualquer área. No minuto seguinte constato que não me especializei em nenhuma delas. Li os clássicos, ouvi os clássicos, cito em mau latim, nada sei de grego. De tanto ouvir sobre viagens internacionais, viajei o mundo todo sem nunca ter ido a parte alguma. E as vezes que fui, acabei não indo: não encontrei o túmulo do herói, o café dos impressionistas, a casa onde morreu Balzac, a nascente do Nilo. Peguei o trem que não devia, o avião antecipado, o hotel do lado oposto, fui ao bar que já havia fechado. A mulher que eu amaria já havia partido, o irmão prometido morreu na guerra da Criméia, o amigo desejado ficou retido em Istambul, um furacão, uma avalanche, uma súbita queda de temperatura, uma mudança do fuso horário, um porre, um mal-estar passageiro, uma diferença de caixa, a falta de um terno novo, o medo de se arriscar, não ouvir um conselho, ouvir um conselho, descartar um par de noves, insistir num casamento, alegar indisposição, simular um orgasmo – e aqui vou eu nesta estrada às três da tarde, como poderia estar numa estrada de Sintra ou do Arizona, eu e minha circunstância imutável: existo – não sou.”

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Viver é prejudicial à saúde
Jamil Snege

(publicado em 1998 pelo autor e republicado em 2020 pela Arte & Letra)

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Arroubos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Música Salva! (49) - We are what we're waiting for

 


Kim Deal - Nobody Loves You More

"Perfect hosts and room ghosts shout
I don't care what they say
They can fight it out
I mean to tell you
Nobody loves you more"

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Kim Deal - Big Ben Beat

"We stare at the stupid stars
Our love is hard
We are what we're waiting for"

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Kim Deal
Nobody Loves You More
(2024)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

meu truta, é o seguinte...

 "...disse em uma voz cheia de areia e intenção..."

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"Falando de evacuações, sua missiva, apesar de completa em outros assuntos, passou por alto nesse. É verdade que você fala em processos de micturição rural, mas muito ligeiramente também. Achei isso uma omissão lamentável da parte de quem, como você, não ignora o meu inesgotável fascínio pela defecação em acampamento. Favor mandar detalhes da próxima vez. Tipo de fossa, posição adotada pelo usuário (agachada ou em pé), número de idas por dia, quantidade de vermes produzida, odor, e número de depósitos por hectares deixados por visitantes anteriores."


Pescar truta na América - Richard Brautigan

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"A pequena distância do barraco havia uma privada com a porta violentamente aberta. O interior da privada estava exposto como um rosto humano, e a privada parecia dizer, 'O velhote que me fez cagou aqui 9.745 vezes, hoje está morto, e não quero que ninguém mais toque em mim. Ele era um bom sujeito. Ele me construiu com carinho. Me deixe em paz. Agora eu sou um monumento a um bom cu que se foi. Não há mistério aqui. É por isso que a porta está aberta. Se quer cagar, vá no mato, como os veados.'

- Foda-se - eu disse à privada. - Eu só quero uma carona rio abaixo."

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"...e na parede tinha um rolo de papel higiênico, tão velho que parecia um parente, talvez um primo, da Magna Carta."

***

Esse post tem o patrocínio de HELLmann's:
a verdadeira maionese.

sábado, 23 de novembro de 2024

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

no ar (yee ha)



"Num dia chuvoso de compras no mercado,
Sou cercado por uma multidão crescente
que acredita que eu posso voar.

Ao que parece cometeram um erro terrível:
o jornal do bairro publicou um artigo sobre um
homem que realmente tem esse talento invejável
mas botaram a minha fotografia em cima do artigo.

Não tenho certeza de como o jornal
conseguiu uma foto minha,
Mas esse é o menor dos meus problemas,
Diante,
Como estou,
Dessa barulhenta multidão de estranhos.

Protesto, mas a multidão não dará trégua até
que eu mostre meus incríveis poderes.

Por fim,
Cedo a eles,
e fico,
batendo meus braços e pulando o mais
alto que posso para o ar úmido.

Isso continua por algum tempo,
E fico com medo, cada vez mais, de que a
multidão, agora desapontada, vá me atacar,
achando que sou um charlatão presunçoso.

Mas, finalmente, eles abrem espaço,
resmungando.

Agradecendo à minha estrela-guia,
eu corro para casa,
muito abalado para continuar as compras.

Naquela noite,
sozinho,
eu tento voar outra vez.

É um exercício fútil, está provado,
mas viciante.

Noite após noite, fico de pé no telhado,
batendo os braços e dando pequenos
saltos sobre as telhas.

Por mais que eu tente,
nunca consigo decolar."


Nação tomada pelo medo
(Thom Yorke & Stanley Donwood)

***

Sabe o que o Thom Yorke disse pra inteligência artificial?

"- Not ok, computer."

sábado, 16 de novembro de 2024

século desapaixonado e indeciso




 “No último quartel do século XX, numa época em que a civilização ocidental decaía inconfortavelmente rápido demais, porém de forma muito lenta para ser excitante, o mundo em grande parte sentava-se numa poltrona de teatro cada vez mais cara, esperando – em variadas combinações de medo, esperança e tédio – algo importante acontecer.

Alguma coisa séria não demoraria a ocorrer. O inconsciente coletivo inteiro não poderia estar errado quanto a isto. Mas o que seria? E seria apocalíptico ou rejuvenescedor? A cura do câncer ou uma explosão nuclear? Uma alteração atmosférica ou uma mudança do mar? Terremotos na Califórnia, abelhas assassinas em Londres, árabes na Bolsa de Valores, a vida sendo gerada em laboratório, ou um OVNI nos jardins da Casa Branca? Monalisa deixaria crescer um bigode? O valor do dólar cairia?”

[...]

“...é preciso concordar que os últimos 25 anos no século XX foram um período duro para os amantes. Foi uma época em que as mulheres estavam magoadas com os homens, em que eles sentiam-se traídos pelas mulheres, uma época em que os relacionamentos românticos assumiriam o caráter da neve quando cai na primavera, abandonando muitas criancinhas em banquisas inóspitas e pontiagudas.

Ninguém sabia o que fazer com a lua.

[...]

“Imagine acordar e descobrir a lua caída de cara no chão do banheiro, como o finado Elvis Presley, envenenada com banana split.

[...]

“- A lua terá alguma finalidade? – ela perguntou ao Príncipe Encantado.

O príncipe Encantado fez de conta que era uma pergunta boba. Talvez fosse. A mesma questão apresentada à Remington SL3 extraiu esta resposta:

Albert Camus escreveu que a única dúvida séria é se você deve suicidar-se ou não.

Tom Robbins escreveu que a única dúvida séria é se o tempo tem um início e um fim.

Camus evidentemente levantou-se de mau humor e Robbins deve ter esquecido de dar corda no despertador.

Existe apenas uma dúvida séria. E é:

Quem sabe como conservar um amor?

Responda-me isto e lhe direi se você deve ou não se matar.

Responda-me isto e o tranquilizarei quanto ao início e o fim do tempo.

Responda-me isto e lhe revelarei para que serve a lua.”

[...]

“Quem sabe como evitar que o seu amor vá embora?

1. Diga-lhe que vai até a lojinha de doces na Flatbush Avenue, no Brooklin, pegar um cheesecake e que se ele ficar poderá comer a metade. Ficará.

2. Diga ao seu amor que você quer uma lembrança dele e consiga um anel de seus cabelos. Queime-o num incensário. Desses que se vende em lojas de artigos baratos com símbolos ying/yang dos três lados. Vire para o sudeste. Fale rápido por sobre o cabelo queimando, numa língua convincentemente exótica. Remova as cinzas e com elas pinte um bigode no seu rosto. Procure seu amor. Diga que você é uma outra pessoa. Ele ficará.

3. Acorde o seu amor no meio da noite. Diga que o mundo está pegando fogo. Corra para a janela do quarto e dê uma espiada. Como se não fosse nada, volte para a cama e garanta ao seu amor que está tudo bem. Adormeça. De manhã, seu amor estará lá.”

***

Still life with woodpecker
Tom Robbins
(
1980)

***

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Lundy, Fastnet, Irish Sea...

(no limbo)


 Nada

"Ninguém gosta de nada
Gostaria do fundo do meu coração que não existisse

Mas apenas querer não basta
Vivemos no mundo real, onde nada existe
Não podemos simplesmente desinventá-lo

Nada é incompreensível
Nem você nem eu temos qualquer esperança
de apenas entender o que é e o que faz

É difícil saber se nada é realmente nada
E, portanto, difícil saber se uma política
de fazer nada é bem sucedida

Nada
Por mais eficaz que tenha sido até agora
Dificilmente pode continuar a sê-lo
por tempo indeterminado

Se eu tivesse de escolher
Entre a contínua possibilidade de nada acontecer
E de nada fazer
Eu sem dúvida escolheria o último

Ou o anterior"


***


In Limbo - Radiohead
Álbum: Kid A (2000)


***

"Lundy, Fastnet, Irish Sea
I got a message I can't read
Another message I can't read"

[...]

"You're living in a fantasy world"

"I'm lost at sea
Don't bother me"

***

ah, nem...
e isso foi em outubro de 2000.
anteontem.

***

Sabe o que o Thom Yorke falou sobre o Genocídio na Faixa de Gaza?

Nada.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024