sábado, 21 de fevereiro de 2026

Palmeiras selvagens (4/?) [dançando furiosos e infinitesimais e sem sapatos] + Minha! (5) [erráticos pássaros cegos]


“...dançando furiosos e infinitesimais e sem sapatos.”


JUL/22

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“...olhos ferais...”

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“...o taciturno Moisés, sem alarme, impermeável ao alarme, apenas esquálido e fanaticamente proibitivo...”

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"...entendi o que tinha lido nos livros mas nunca tinha realmente acreditado: que amor e sofrimento são a mesma coisa e que o valor do amor é a quantia que você tem que pagar por ele, e sempre que for uma pechincha você terá enganado a si mesmo.”

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“...como ao acordar o nome deste dia fora escrito em letras de fogo, e não com palavras saídas de uma canção de ninar ou de um calendário...”

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“É assim que onde eu estou se parece de lá. É assim que parecemos vistos de lá.”

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“...como uma mosca morta desaparecida sob a industriosa labuta de um enxame de formigas.”

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“...na pequena morte da profunda exaustão...”

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“...o inverno que arrebanha as pessoas dentro das paredes seja lá de onde estiverem...”

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“...o rugir da própria saliva...”

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“...enchendo o ar errático como erráticos pássaros cegos.”








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Toda minha:

cada canto;
cada abandono;
cada coqueiro;
cada conselho;
cada a(rara)crobacia.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

[toda minha (4)] + [Música Salva! (52): Niilistas com boa imaginação]


cada canto;
cada abandono;
cada coqueiro;
cada conselho
(solicitado ou não, bem ou mal intencionado).

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"You've got my back in the city
You've got my back, 'cause I don't want to panic"

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of Montreal - Gronlandic Edit

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"But which one, which one do I cho-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-se?"

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"Nihilists with good imaginations
I am satisfied
Hiding in our friend's apartment
Only leaving once a day
To buy some groceries
Daylight, I'm so absent-minded
Nighttime, meeting new anxieties
So am I erasing myself?
Hope I'm not erasing myself
I guess it would be nice to give my heart to a god
But which one, which one do I choose?
All the churches filled with losers, psycho or confused
I just want to hold the divine in mind
And forget, forget, forget, forget, forget
All of the beauty's wasted
Let's fall back to earth and do something pleasant
(Say it)
We fell back to earth like gravity's bitches, bitches
Physics makes us all its bitches
I guess it would be nice to help in your escape
From patterns your parents designed
All the party people dancing for the indie star
But he's the worst faker by far in the set
I forget, forget, forget, forget, forget
All of the beauty's wasted
I guess it would be nice
Show me that things can be nice
I guess it would be nice
Show me that things can be nice
You've got my back in the city
You've got my back, 'cause I don't want to panic
You've got my back in the city
You've got my back, 'cause I don't want to panic."

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Palmeiras selvagens (3/?) + É minha e me pertence (3) [verdade matemática do ensolarado intemporal vazio]


Como 1 e 1 são vários:

cada canto;
cada abandono;
cada coqueiro
(solitário ou gregário, selvagem, urbano ou suburbano).

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“Porém, os dias em si continuavam iguais – a mesma recapitulação estacionária do intervalo dourado entre a alvorada e o crepúsculo, os longos dias tranquilos e idênticos, a imaculada hierarquia monótona dos meios-dias cheios do quente mel solar, através dos quais o ano moribundo vagava na degradação vermelha-e-amarela das folhas de árvores decíduas, sem origem, indo para lugar nenhum.”

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“...solidão plena de sol...”

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“...tédio muscular absoluto...”


AGO/2024

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"Então um dia resolveu fazer um calendário, uma ideia inocentemente concebida não pela mente, pelo desejo de ter um calendário, mas pelo tédio muscular absoluto, e realizada com o puro e tranquilo prazer sensorial de um homem talhando uma caixa num caroço de pêssego ou o pai-nosso numa cabeça de alfinete; desenhou o calendário com capricho no bloco, numerando os dias, planejando usar diversas cores apropriadas para os domingos e feriados. Imediatamente descobriu que havia perdido a conta dos dias, mas isto só aumentou a expectativa, prolongando o trabalho, tornando o prazer mais complexo, a caixa de pêssegos deveria ser dupla, a reza deveria estar em código. Por isso voltou para aquela primeira manhã em que McCord e ele se agacharam junto da água, cujo nome e data sabia, então contou para diante, reconstruindo de cabeça as sonolentas demarcações entre uma madrugada e outra, desembaraçando uma a uma da trama áspera como vinho e silenciosa como mel da solidão sem marés, as terças e sextas e os domingos perdidos; quando de repente lhe ocorreu que podia comprovar os números, estabelecer a verdade matemática do ensolarado intemporal vazio no qual as unidades diárias haviam desvanecido, pelas datas dos intervalos entre os períodos menstruais de Charlote; sentiu-se como um velho contemplativo apoiado por um cajado nas antigas colinas sírias movimentadas por ovelhas deve ter se sentido após tropeçar acidentalmente em alguma fórmula alexandrina que provava as verdades estelares que ele havia observado a cada noite toda a vida e sabia ser verdadeiras, embora não soubesse como nem por quê.”

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"...desembaraçando uma a uma da trama áspera como vinho e silenciosa como mel da solidão sem marés..."

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“Descobri há uns tempos que é o ócio que cria todas as nossas virtudes, nossas qualidades mais suportáveis – a contemplação, a equanimidade, a preguiça, deixar os outros em paz; boa digestão mental e física: a sabedoria que é se concentrar nos prazeres da carne – comer e evacuar e fornicar e se sentar ao sol -, dos quais nada é melhor, nada se compara, nada mais em todo este mundo do que simplesmente viver durante o curto espaço em que nos emprestam alento, do que estar vivo e consciente...”

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“...com a indelével marca de dez mil subxerifes sulinos, urbanos e suburbanos...”

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

[a cidade é minha (2)] + [Música Salva! (51): Lebres prateadas dançando em círculo!]


Cada canto.
Cada abandono.

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...through the roof...


...'n' underground...

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Through the Roof 'n' Underground
Gogol Bordello

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"When there's a trap set up for you
In every corner of this town
And so you learn the only way to go is underground
When there's a trap set up for you
In every corner of your room
And so you learn the only way to go is through the roof"

"...oohh, oohh, oohh..."

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"Серебряные зайцы там водят хоровод!"

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Palmeiras selvagens (2/?) [rendimentos normais decrescentes e o amor economicamente inviável]


E por falar em paradoxal, ultrajante e bizarro, aí vai uma pergunta filosoficapciosespeculativa, pense bem antes de responder em seu âmago:

E se, bem longe daqui, em uma noite escura e uivante, que por descuido da lua ficou de fora de todos os calendários já datilografados sobre esta imensa e desolada terra, uma palmeira é arrancada do solo profundo e adormecido por este louco e ensandecido vento devastador, que a faz desabar violentamente no duro tapete asfáltico de um breu absoluto, porém, sem ninguém para testemunhar a queda, ela (a palmeira) faz algum barulho ou apenas emite – no linguajar e ao modo particular das palmeiras - o mesmo som e a mesma fúria de um ciclone atravessando Saturno?

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“...como a fileira de formigas entre os trilhos por onde passa o trem expresso, elas (as formigas) tão ignorantes do poder e da fúria como de um ciclone atravessando Saturno.”


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Como toda especulação filosoficapciosespeculativa, isso não tem resposta correta, mas o que eu posso garantir é que as palmeiras usadas neste livro de forma alguma podem ser consideradas ambientalmente corretas, socialmente justas ou, principalmente - principalmente mesmo - economicamente viáveis.

E ainda menos de origem controlada.


Palmeiras Selvagens - William Faulkner (1939)
(Companhia das Letras, 2024)

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“Sim. No amor. Dizem que o amor morre entre duas pessoas. É mentira. Não morre. Simplesmente abandona você, vai embora, se você não é bom o bastante, digno o bastante. Não morre; quem morre é você. É como o oceano: se você não presta, se começa a empesteá-lo, ele te cospe fora em alguma parte para morrer. Você morre de qualquer jeito, mas prefiro me afogar no oceano a ser vomitada numa faixa perdida de praia e acabar secada pelo sol até me tornar uma mancha suja sem nome, com apenas 'Isto Foi' como epitáfio.”

*

“E a fome não está aqui... – Ela bateu na barriga dele com as costas da mão. – São só suas entranhas roncando. A fome está aqui.  – Tocou no peito dele. – Nunca se esqueça disso.

- Não esquecerei. Agora não.

“Mas poderá esquecer. Você já sentiu fome nas entranhas, por isso está com medo. Porque a gente sempre tem medo daquilo que suportou.”

*

“Ela alugou aquela claraboia.”

*

“Como coisas criadas para viver apenas na maior e mais asfixiante escuridão, como num cofre de banco ou talvez num pântano venenoso, não no ar nutritivo, rico e normal expelido por entranhas cheias de legumes...”

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“Deus não vai deixa-la morrer de fome, pensava. Ela é valiosa demais. Ele caprichou demais nela. Mesmo quem criou todas as coisas deve gostar de algumas o bastante para querer guardá-las.”

*

“ – Em nome de Jesus Schopenhauer – disse McCord. – Que espécie de literatura de nona categoria é essa? Você ainda nem começou a passar fome. Ainda nem concluiu seu curso completo de indigência.”

*

“...um meio-fio suburbano e opulento...”

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“...os gramados corrediços da meia-noite...”

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“A gente não se dá conta do quão flexível é o dinheiro até trocá-lo por alguma coisa – disse. – Talvez seja isso que os economistas entendem por rendimentos normais decrescentes.”

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E, em nome de Jesus Schopenhauer e do Espírito Santo do FSC, assim como o amor selvagem é sempre economicamente inviável, enchentes e ciclones talvez sejam também um pouquinho ambientalmente incorretos e socialmente injustos, de alguma forma.

Ou seria o contrário?